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Em “James e o Pêssego Gigante” o rapaz vê os seus pais a serem comidos por um rinoceronte e vai viver com uma tia maléfica. Em “As Bruxas”, um menino órfão depara-se com algumas bruxas e tenta fintá-las com os conselhos da avó. Em “Matilda”, a rapariga vive com pais negligentes e estuda numa escola em que as crianças são atiradas pela janela. Nos enredos de Roald Dahl a infância infeliz é uma constante. E há um motivo.


Quando ainda era pequeno, Roald Dahl (nascido em Gales, com pais noruegueses) enfrentou a morte da irmã e logo a seguir a do pai. Começou depois a estudar num colégio onde era maltratado pelo diretor. A vida avançou, mas nem depois de casar e ter cinco filhos Dahl teve sossego: um dos filhos sofreu uma grave lesão cerebral depois de ser atropelado, uma das filhas morreu aos sete anos e a mulher teve três derrames cerebrais durante a última gravidez.


Tanta desgraça fez do escritor britânico alguém frio: maltratava uma das filhas perguntando-lhe porque não conseguia ela ser igual à irmã que morrera. E depois internou o filho deficiente, repetindo-lhe que não era uma pessoa normal.


O clássico infantil “O Vento nos Salgueiros” é uma fábula que se passa num lindo dia de primavera em que a toupeira se cansa de estar em casa e decide visitar os seus amigos do bosque. As personagens deste e de outros contos de Kenneth Grahame vieram todos das histórias de embalar que o escritor contava ao filho, Alastair, quando este ainda era uma criança. Os seus contos serão o reflexo do que o escritor acha que deveria ser pai.


Ora, era um menino doente (entre outras coisas, era cego de um olho) e acabou por conquistar toda a atenção dos pais. Quando já era mais crescido, costumava esconder-se nas bermas das estradas e engendrar planos para provocar acidentes. E insistia que lhe chamassem Robinson, o nome do homem que tentou matar Kenneth Grahame quando o escritor trabalhava num banco.


O escritor escocês enviava cartas com contos ao filho cada vez que estava longe, mas deixou de o fazer a partir da certa altura. Um dia, Alastair suicidou-se numa linha de comboio. Tinha 20 anos.


Num livro ou no cinema, “A Teia de Carlota” é do conhecimento de quase todas as crianças. Trata-se da história de um porco chamado Wilbur que trava amizade com uma aranha chamada Carlota que o ajuda a fugir à morte. Podia ser mais um livro que ensina a importância da amizade, da resistência e da beleza interior, mas é também o espelho do carinho que E. B. White tem por aranhas.


Senão veja: em vez de pisar este animal – que tem demasiadas patas para que o humano simpatize com ele – E. B. White seguiu de perto a vida de uma aranha que encontrou no celeiro onde vivia. A dita aranha estava grávida, por isso quando morreu White decidiu guardar os ovos e levá-los com ele para Nova Iorque, para onde se ia mudar. Sim, no meio dos prédios. As aranhas nasceram e cresceram um pouco, mas as empregadas de limpeza de E. B. White persuadiram-no a mandar os bichos embora, para manter a casa em condições.




Foi o que E. B. White fez: foi para a rua em Nova Iorque e deixou as pequenas aranhas entregues a elas próprias. Só que as aranhas… voltaram, e o fascínio de E. B. White continuou.

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